[introdução.resumo.situação]
    Não há, particularmente a falar, uma maior vontade do que aquela por pequenices. Faço desta introdução uma justificativa à escolha dos degraus. Desde o momento que dei cá o primeiro passo uma coisa fora sempre certeira: eu haveria de subir e descer ruas, pontes e escadas se quisesse chegar. Aonde? Não faria qualquer diferença. Ainda hoje não faz.
    A definição de equipamento urbano, ou equipamento de utilização coletiva, apesar de muito objetiva a sua descrição no RJIGT (artigo 21°[1]), não me impossibilitou de trazer para a análise uma quantidade até razoável de lances. Me parecem ser fundamentais tanto na ordenação do território quanto ao cumprir a sua função de promotor de qualidade de vida e acesso à cultura, por exemplo. 
    A escolha pelas escadarias dos guindais, apesar disso, não foi consciente desde o primeiro momento. Poderia dar aqui todas as cartadas possíveis sobre a vista privilegiada que mira as muralhas fernandinas ou o enquadramento impecável da ponte, mas a verdade é que desde términos já-não-tão-românticos e tropeços bêbados, até desafios desportivos lançados pela câmara do porto -estes os quais nunca foram alvo dos meus melhores esforços-, o que me trouxe aos guindais foi a necessidade constante que a própria cidade me tramou: tomar cervejas baratas e jogar matrecos por entre associações bairristas[2].
    Hábito que, por muito que gostasse, foi estancado deliberadamente pelo não-pertencimento. É importante reconhecer as práticas pequeno-burguesas de apoderar-se de espaços que não são seus e dispersá-las. Há algumas tantas associações, entretanto, que a malta das artes, mesmo que a fugir do mainstream, ainda (bem) não deu conta de reivindicar para si a cerveja barata e a memória coletiva. 
    
    Mas, de volta às escadas, trazer como equipamento urbano aquilo que é acesso, caminho, palco, banco; que é carnaval e é também todo santo, que é enquadramento, alvo finado de uns imobiliários e peito aberto de outros inquilinos, me pareceu uma anamnese[3] mais divertida para este ensaio que qualquer outra obra batida dos ganha-prêmios por aí.
    A escadaria abriga o turismo em toda foto, abriga o sem-teto -que, acreditem, está empregado-, o cristão devoto a fazer os joelhos de pés para alcançar os céus, abriga as vozes que lutam; as janelas que calam, mas não deixam de ver. A escadaria está abrigada por descrições quase sempre liminares. Está abrigada em todo tropeço e, como secundária de todo grande lugar, virou metáfora para muitos livros de autoajuda.
    Faço-me a mesma pergunta que um historiador por quem tenho muito apreço fez-se em uma entrevista[4]: “por que é que esse presente quer estudar esse passado?” e, mais do que isso, pergunto-me: por que é que a minha pessoa quer estudar esses degraus? E, a mim, é a pergunta para duas mil palavras.
    É com extrema antipatia e com muita suspeita que respondo ao exercício indigesto de descrever, ainda que à minha maneira. E deixo, de antemão, como já o fiz antes -e como sinto sempre a necessidade de fazê-lo-, de onde é que estou a partir.
    Este ensaio, para que alcance o seu próprio entendimento, precisará passar inevitavelmente pelo lugar [5] e pelo afeto [6] e cruzar, ainda, com o papel privilegiado do desenho [na academia] [7] como aparato de consolidação de um pensamento dominador[8]. Ressalto também, seja como acadêmica ou apenas mais alguém a vivenciar este mundo cão, que o desenho e a memória descritiva podem querer pegar para si a objetividade, mas não serão, nunca, capazes de separar as esferas físicas e materiais, da geograficidade[9] e consciência [social e] de mundo vivido. [Ainda que tentem]. E isto, por si só, já me seria contradição que bastasse. 
    Não há dados imanentes ou inatos sobre o objeto arquitetônico. E não considero, de forma alguma, que devamos caminhar a partir disto para a subjetivação do mesmo objeto, pelo contrário: é através da realidade concreta, da aproximação e soma das experiências[10] arrisco-me também dizer, que gostaria de usar essas escadarias como vínculo a outros sujeitos cognitivos, tornar comum o ato de conhecer [e reconhecer]. Uso da minha localidade[11], então, o ponto de partida.
[parte 01]
o lugar e o afeto


“Não há diferença entre o castelo e os camponeses”[12]
    O mercado globalizado é, sem dúvida [para mim], o estilo arquitetônico mais coerente da atualidade. Não porque concorde com ele, que não é o caso, mas porque é importante enxergar as suas intenções e tratá-las pelos nomes apropriados. Um grande viva à boa arquitetura e a sua perspicácia em capturar todos os nossos desejos[13], então.
    Mais do que qualquer mecanismo clássico de dominação baseado na força[14], a arquitetura [enquanto consumida] garante que a vivência do espaço físico não só dispute as narrativas temporais de cada um, mas que dispute também a própria produção do pensamento; sendo que a arquitetura enquanto objeto futuro [enquanto em produção material] não poderá exercer diferente função já que é concebida através dos mesmos moldes cíclicos de submissão. 
    Essa produção e estruturação do pensamento como norma implícita do objeto arquitetônico - e que assim permanece para que possa funcionar-, confere as possibilidades de realidades e direitos de existência por pré-determinação. Então, apelo ao enunciado uma estrutura que possibilite não apenas a existência da experiência e do afeto com o espaço vivido[15]  como ferramenta crucial para a teoria, mas que admita, neste texto, mais do que cada degrau descrito [e aqui, haverá piada após uma leitura total], um modo válido de conhecer.
    Acredito que a teoria como campo emancipatório deve, sempre que possível, passar pelo abandono da esperança e do medo como afetos centrais com o mundo. A primeira, por que implica na existência [lacaniana] da segunda em outras temporalidades de expectativa e valida um modo passivo de interação com a realidade; e a segunda, porque é a potência produtiva principal de garantia da conformação espacial [amparadora dos nossos desejos] e de uma ordem social [a produção do pensamento]. A necessidade de trazer a este ensaio estas questões, então, vem de uma busca contínua pelo lugar, o espaço vivído através de outros afetos.

“(...) uma política realmente emancipatória, de certa forma, funda-se na capacidade de fazer circular socialmente a experiência de desamparo e sua violência específica, e não de construir fantasias que nos defendam dela.” (SAFATLE, 2015, p. 50)

Que estas palavras permitam fazer circular a minha experiência, os meus afetos, as minhas descrições e duzentos e noventa degraus.

[parte 02]
o desenho

_​​​​​​​
    Quando digo [e é algo que repito frequentemente entre amigos estudantes, arquitetos e sindicalistas] que o ato de desenhar na nossa profissão [ou ofício, para aqueles que sonham com trabalho] é uma afirmação de poder extremamente contraditória, é comum o debate travar-se no apego ao seu uso como método ou até nos tais papéis dos arquitetos e das suas arquiteturas todas na sociedade. 
    Essas conversas, que parecem [quase] nunca ganhar qualquer forma fora dos moldes habituais e seguros [da academia, principalmente], não incidem sobre qualquer mutação das relações laborais. E não falo aqui das remediações sociais, reformismos ou assistencialismos, nem das esmolas disfarçadas de construa-você-mesmo[16] e nem das utopias de estéticas apelativas e diagramadoras das tantas formas de habitar.  O que, na verdade, parece-me faltar, é a consideração do objeto arquitetônico como algo que “é fabricado, circula e é consumido, antes de mais nada, como mercadoria”[17].
    Vejo chegarem à forma construída os bons desenhadores, a mão-de-obra, a tecnologia de ponta e o mais ecológico [mais um termo batido] dos materiais. Há sempre questionamentos sobre a energia incorporada, sobre a acessibilidade, sobre o direito à moradia, sobre as tantas formas de usar o desenho para descrever e para prever a melhor perspectiva. Apesar de uma sofisticação administrativa impressionante, obrigo-me a concordar com Ferro: “A elaboração material do espaço é mais função do processo de valorização do capital que de alguma coerência interna técnica”[18].
    Em outras palavras, apesar dos esforços constantes para preencher as lacunas de uma manufatura[19] que é tratada indecorosamente como indústria [da construção], o debate continua a apoiar-se no trabalhador parcial. Lacunas essas que convenientemente mantém-se [nós e eles -e deixo aqui ao risco da interpretação alheia] a considerar que, aos construtores [artesãos[20]], o processo histórico do devir foi antagônico à generalidade dos ofícios: deles foram tirados o saber-fazer, a autonomia e o conhecimento teórico-prático da construção. Em troca, o desenho tornou-se “caminho obrigatório para a extração de mais-valia”[21], incorporando as ligações e estruturas necessárias para um produto coletivo final fruto da divisão e alienação do trabalho [no canteiro].
    Não me comove em nada que a nossa contínua reiteração dos métodos de desenho produza [e reproduza] objetos arquitetônicos homólogos, acompanhados de discursos e descritivos muitas vezes monótonos. O desenho, constantemente concebido através de uma posição de autoridade, de um olhar privilegiado e de uma hierarquia social, não só denuncia uma passividade confortável em relação ao objeto arquitetônico, como também, o seu próprio reconhecimento [que, particularmente, acho] excessivo dentro da academia e dos locais de trabalho, perpetua um futuro cada vez mais autocentrado na dominação.
    A contradição se dá precisamente quando, em ambiguidade e em diferentes escalas, os arquitetos conservam para si [infelizmente com muito brio, diga-se já, agora] a ferramenta e o conhecimento que os coloca dominadores do canteiro e dominados pela arquitetura-mercadoria, já que seu trabalho também é fruto de um processo extenso de distração. 
    Ao que me toca e ao que toca ao enunciado deste exercício, a escolha pelas escadarias vem de encontro à escolha de um lugar afetivo de sobra, fruto tanto de processos sociais conscientes -os quais não conheço todos, mas presumo com certa segurança que são consequência da divisão da terra-, quanto de processos inconscientes de geograficidade[22]. E o desenho, assim como a descrição que virá, se fará à sua própria malícia. Desintegrado e contraditoriamente objetivo, dividir-se-á em degraus justapostos como quem decompõe o objeto arquitetônico em trabalhos dispersos [onde a compreensão global total da construção, intencionalmente, não lhes cabe. Ou onde, neste caso, não lhes deixarei caber].
    Desenho sob o risco de contradizer-me e de colocar-me abertamente em erro. Por um feliz acaso [que cabe aqui explicitar],  porém, Bell Hooks[23] rompeu em mim qualquer receio que poderia vir a ter:
“O aprendizado genuíno exige de nós uma abertura constante, uma disposição de se engajar na invenção e na reinvenção, de forma que possamos descobrir esses espaços de transparência radical.”
[parte 03]
a descrição
_
    Em It had something to do with the telling of time: Spaces in Fiction, Constructs of Reality[24], Viken permite puxar para si o diálogo entre protagonistas e os epaços onde se encontram, através do roteiro de sete romances. Em literalidade, faz do espaço físico um sujeito próprio que expressa [oralmente] suas questões para quem por ele passa. 
    Em um primeiro momento, pareceu-me um caminho entusiasmante a seguir como metodologia visto tudo que já aqui foi colocado. Mas, pareceu-me ainda mais proveitoso denunciar a descrição dentro de si mesma. Trabalhar, novamente, em uma resposta fragmentada. Por mais objetivos que sejam os fatores (a forma, o lugar, o volume, o material, a medida), a circunstância e condição em que investigo, organizo e apresento tais fatores, altera, sim, o produto [para quem lê].
    A descrição e desenho destes duzentos e noventa degraus são ferramentas que permitem um acesso visual parcial e apático. Não porque meus traços tremidos -esteticamente intencionais para que haja a mínima piada nessa crítica ao desenho- expressam qualquer sensibilidade com o construído, porque não acho que o fazem, mas porque são apenas isso: ferramentas.

        “To turn a table, you first  have to know  what a table is.”  
(VIKEN, 2015)

    Diria que, para usar destas descrições, é melhor que já tenham subido um lance de escadas. 
    E deixo, em teimosia, uma descrição suspeita:
[a subir, do douro à batalha]
    Cabem nestas escadas 269 passadas de pés 36 e passos calmos de 64cm e muito fôlego. Ou, 172m de comprimento e por volta dos 50m de ganho de altitude. 
    Se saio pela manhã, começo a subir a olhar para o sol, só lhe viro as costas no degrau 168, para deixá-lo de lado no 195. Se saio ao fim da tarde,  no degrau 215 entro à porta da esquerda [do guindalense] e vejo o sol se pôr compondo a imagem com a ponte. Ou, majoritariamente, as escadarias sobem em direção nascente, mudam de direção mais quatro vezes, à meio viram-se a poente e terminam seguindo a norte.
    O google maps diz-me quatro minutos à pé, mas, se estiver atrasada para apanhar o autocarro, garanto que faço em menos, apesar do alto risco de tropeço. Ou, são irregulares e íngremes os 290 degraus, podendo ser feitos em alguns minutos.
    Se magoar as minhas pernas, é bom saber que não posso viver ali a meio. E, se tiver carro, fica mais fácil achar lugar do degrau 290 pra cima ou do 215 pra direita lá para o número de polícia 50. Ou, são caminhos exclusivamente pedonais de difícil acesso para quem tem mobilidade reduzida. Têm largura média de 3,50m, podendo chegar aos 6m. Ao norte, na R. Arnaldo Gama, podem estacionar automóveis; à direita, na altura d’A Tasquinha dos Guindais, há espaço para lugares de estacionamento a partir da casa de número 50 da R. Miradouro.

[a descer, da batalha ao douro]
    
    Há dias de preguiça e acabo por ceder aos avanços da mecânica e às regalias do cartão da cidade. Quando chove, os tecidos voltam todos para dentro e já não vejo [sem querer] a vida privada de ninguém, mas as mesas permanecem em alguns cantos. Ou, como opção ao trajeto, é possível usar o furnicular. O entorno imediato das escadas é majoritariamente habitacional e as casas viram-se umas para as outras. Funcionam, em alguns pontos mais acessíveis, associações e comércios que apropriam-se dos patamares mais largos para pousarem mesas e cadeiras à clientela.

bibliografias e anotações
[1]  Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial- Art 21°Redes de Infraestruturas e equipamentos coletivos. (Disponível em: https://dre.pt/dre/legislacao-consolidada/decreto-lei/2015-105297982)
[2] Em referência às associações desportivas e recreativas das freguesias da cidade.
[3] Na medicina, um ponto inicial de contacto e diagnóstico de utente.
[4] Gustavo G. em entrevista ao À deriva (disponível em: https://www.youtube.com/live/Au976AEdCxE?feature=share)
[5] HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. Tradução: Carlos Szlak. Coordenação: Antônio Carlos Robert Moraes. São Paulo: Annablume, 2005
[6] SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: CosacNaify, 2015
[7] FERRO, Sérgio. Arquitetura e trabalho livre. Coleção Face Norte, volume 09. São Paulo, Cosac Naify, 2006.
[8] HOOKS, Bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: Elefante, 2020.
[9] DAMIANI, Amélia. O lugar e o plano do vivido. In: CARLOS, Ana Fani A.; CRUZ, Rita de Cássia A. (orgs.). A necessidade da Geografia. São Paulo: Contexto, 2019. | FREIRE, Paulo. Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em Processo. 2ª ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978
[10] HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução: Marcelo Brandão Cipolla. 2ª Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2017
[11] FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
[12] KAFKA, Franz. O Castelo; tradução e posfácio Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2000
[13] SPENCER, D. Smooth operators: architectural Deleuzism in societies of control. Thesis, 2012
[14] SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: CosacNaify, 2015
[15] FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. | SANTOS, M.  Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 25ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.
[16] Coloco-me aqui em crítica a individualização da responsabilidade por condições e vivências mínimas de acesso à bens e serviços. Para além de que, não irei me ater a julgamentos acerca de políticas assistencialistas ou reformistas.
[17] [18] FERRO, Sérgio. O Canteiro e o Desenho. Em: Arquitetura e trabalho livre. Coleção Face Norte, volume 09. São Paulo, Cosac Naify, 2006.
[19] [20] MARX, K. O Capital - Livro I – crítica da economia política: O processo de produção do capital. Capítulo 12: Divisão do trabalho e Manufactura. Tradução Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013
[21] FERRO, Sérgio. O Canteiro e o Desenho. Em: Arquitetura e trabalho livre. Coleção Face Norte, volume 09. São Paulo, Cosac Naify, 2006.
[22] DAMIANI, Amélia. O lugar e o plano do vivido. In: CARLOS, Ana Fani A.; CRUZ, Rita de Cássia A. (orgs.). A necessidade da Geografia. São Paulo: Contexto, 2019.
[23] HOOKS, Bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: Elefante, 2020.
[14] VIKEN, Annee G. It Had Somethin To Do With The Telling Of The Time- Spaces in fiction, constructs of reality. ed. Onomatopee, Países Baixos, 2015.